Joya Photos

Joya's Book


Reviews | Translations

Prêmio Anna Politkovskaya' 2008 para Malalaï Joya - A Mulher Mais Corajosa do Afeganistão

Atenção, abrir em uma nova janela. PDFImprimirE-mail

Odiada por alguns em sua terra natal, amada e premiada em todo o mundo. A voz de Joya ecoa como desafio ao Taliban e aos temidos senhores da guerra, e como sinônimo de esperança ao seu povo

por Edu Montesanti, Nolan Chart, 22.8.2008
tradução de Edu Montesanti

Prêmio Anna Politkovskaya 2008

Deveriam saber que sob a ocupação dos EUA, o Afeganistão tornou-se o produtor número um de ópio do mundo, e uma grande parte dele é contrabandeada aos Estados Unidos (2) (Joya). O Afeganistão domina o mercado mundial da droga, com 93 % de ópio do mundo, apoiado pela Aliança do Norte dos senhores da guerra (líderes tribais armados). Os quatro maiores atuantes no setor de comércio de heroína são altos funcionários do governo afegão.

Você sabia disso?

O governo afegão tem controle de apenas 30% do país, e onde o Taliban e os senhores da guerra locais detêm o poder, simplesmente não há lei. O Presidente Karzai é tão impotente frente aos "criminosos" senhores da guerra que ele é zombado, chamado de prefeito de Cabul (3). (Joya)

Você sabia disso?

Um relatório da organização internacional de mulheres, a Woman Worldwide, declarou que milhões de mulheres e garotas afegãs continuam enfrentando discriminação e violência no dia-a-dia, e que isso aumentou no ano passado. Tanto o Taliban quanto os senhores da guerra Mujahedeen são acusados ainda de estuprar meninas muito novas, algumas de até quatro anos de idade (1). (Joya)

Você sabia disso?

Deveriam saber que o povo afegão enfrenta um 11 de setembro todos os dias. As forças dos EUA e da OTAN matam mais civis do que os inimigos do povo afegão (...). Milhares de mulheres afegãs inocentes e crianças têm sido mortas nas operações EUA / OTAN. (4). (Joya).

Você sabia disso?

Aparentemente, as tropas dos EUA estão aqui para combater o Taliban, mas por outro lado elas apóiam totalmente os comandantes da Aliança do Norte, que são os principais vendedores de armas e munições ao Taliban. Os soldados dos EUA são inocentes, porque foi-lhes dito que nos trariam democracia. Quando me pronunciei nos EUA no início deste ano [2007], pessoas que haviam perdido seus entes queridos no Afeganistão vieram até mim e abraçaram-me, choraram e disseram que compreendiam cada vez mais que a política dos EUA no Afeganistão é uma zombaria da democracia (6). (Joya).

Os piores inimigos do povo afegão que trouxeram Osama bin Laden e que massacraram nosso povo, e cometeram incríveis crimes contra a mulher estão agora no poder, levados de volta pelo governo dos Estados Unidos (2). Os Estados Unidos estão satisfeitos com a situação do país (...). Eles usam a insurreição de talibans como uma desculpa para permanecer por mais tempo no Afeganistão (...). Não há diferença entre esses pessoas e Pinochet, Mussolini, Hitler, e assim por diante (1). A propaganda para o mundo sobre a libertação do Afeganistão e das mulheres, e de lutar contra os terroristas, é mentira (4). (Joya)

Malalai Joya

Você sabia disso?

Se não houver Taliban, não haverá tolos norte-americanos ocupando suas terras com grandes armas e células de tortura (...). Os Estados Unidos não estão preocupados com a causa principal por trás do terrorismo no Afeganistão. Daí por que nosso povo não considera os Estados Unidos libertadores do nosso país (...).

Penso que se Espanha e outros governos realmente querem ajudar o povo do Afeganistão e trazer mudanças positivas, eles têm de agir independentemente em vez de se tornar um instrumento para implantar as políticas do governo dos Estados Unidos (...). Eles seguem exatamente os passos do governo dos Estados Unidos, e tornaram-se instrumento nas mãos dos Estados Unidos para implementar seus interesses estratégicos, regionais e econômicos (2). O povo afegão está hoje convencido de que os Estados Unidos estão dispostos a colocar-nos em risco enquanto estiver em jogo seus próprios interesses regionais (4). (Joya).

Você sabia disso?

Joya tem 30 anos. Toda sua vida tem sido uma batalha. Ela ama a vida, disposta a dar sua própria vida por seus ideais e por aqueles que ama. Ela é literalmente uma voz no deserto, o sentido exato da religião viva em um mundo onde palavra e prática não andam de mãos dadas

A partir das próximas linhas você saberá o que grande parte do mundo não sabe, e também saberá por que você nunca ouviu falar em Joya. Prepare-se para encarar a verdade; prepare-se para se apaixonar por MALALAI JOYA - PRÊMIO ANNA POLITKOVSKAYA' 2008

Malalai Joya - Primeiros Anos

1982. Joya tem quatro anos quando foge com a família do Afeganistão, ao Irã e depois ao Paquistão, onde vivem em campos de refugiados. As forças soviéticas invadiram Cabul em 1979, oprimindo o povo afegão por todo o país, situação que perduraria pelos próximos dez anos.

Joya é escolarizada em um campo do Paquistão onde, interessada pela vida dos refugiados, ouve histórias sobre seus conterrâneos - torturas, estupros, choros, pesadelos, mulheres que perderam maridos, filhos e filhas. Assim, fica sabendo o que acontece em sua pátria.

Garota que aprende rápido as coisas, Joya em muito pouco tempo começa a ensinar meninas e mães a ler e escrever - inclusive sua própria mãe! "Eu sabia que nossa saúde dependia da nossa educação", disse Joya este ano ao jornal francês Le Monde (confira o depoimento na íntegra, traduzido para o português).

No Afeganistão, o Taliban toma o poder em 1995. No Paquistão, a Organização para Promoção das Habilidades das Mulheres Afegãs (OPAWC, na sigla em inglês) marca Joya, a qual ingressa garotas ativistas para estimular escolas clandestinas para meninas no Afeganistão, proibidas pelo Taliban que é totalmente anti-feminista. Os pais de Joya têm medo do trabalho, o qual requer o regresso ao país, mas Joya está decidida e insiste em incentivar a família.

A Nova Vida na Velha Terra

Em 1998, quando Joya tem 20 anos, ela e a família retornam definitivamente à pátria. A ocupação soviética retirou-se do Afeganistão nove anos atrás, deixando um vácuo político preenchido pelo Taliban e pelos senhores da guerra, ambos apoiados e armados pelos Estados Unidos na luta contra os comunistas.

Joya começa imediatamente a ensinar meninas em escolas clandestinas - ganha um salário por essa tarefa, uma atividade muito perigosa, mas ela está decidida em seguir adiante. O Taliban tem espiões que perseguem garotas em toda parte, de modo que Joya e suas alunas costumam trocar de salas de aula muitas vezes, levando com elas um Corão para fingir que vão apenas rezar.

Joya Eleita à Loya Jirga, para Logo Ser Expulsa

Em Dezembro de 2003, Joya é eleita para integrar a Loya Jirga, uma assembléia de 500 cadeiras reunida para rever um projeto da Constituição, onde ela encara ao seu lado os ladrões, estupradores e torturadores que ouviu falar ao longo de toda sua infância e adolescência, no exterior.

Na Loya Jirga, os senhores da guerra da Aliança do Norte, levados ao poder pelos Estados Unidos, tentam prejudicar todos os comitês dispostos a tomar o poder absoluto aproveitando-se da nova democracia. Isso incomoda Joya profundamente, que pensa consigo mesma, "Devo desmascará-los! Isso é intolerável! São aqueles que transformaram nosso país neste núcleo de guerras nacionais e internacionais. São aquela maioria de anti-feministas da sociedade que levaram o nosso país a esse estado, e querem fazer o mesmo de novo. Considero um erro dar-lhes uma segunda oportunidade. Eles devem ser levados ao tribunal nacional e internacional". (2)

Assim, é dada autorização para que Joya fale. Há vários jornalistas na Loya Jirga; os senhores da guerra enchem o lugar. Ela fala por dois minutos, dois minutos que mudariam completamente sua vida. O discurso duro de Joya, denunciando os crimes dos senhores da guerra, faz com que haja um minuto de silêncio total. Em seguida, os senhores da guerra, furiosos, gritam insultos, "Infiel! Prostituta! Comunista!", exigindo suas desculpas. Tal pedido é impossível por parte da parlamentar indignada: "Eu preferiria morrer!". Deste modo, Joya é sumariamente excluída das atividades atuais. Nas ruas afegãs multidões gritam, "Muito bem! Muito obrigado! ".

Amplamente Apoiada pelo Povo, Joya É Eleita ao Parlamento

Malalai Joya 2003

Em Novembro de 2005, Joya é eleita novamente: agora, para compor o Parlamento de Farah, província da capital nacional Cabul. Com 27 anos de idade, torna-se a mais jovem membro eleita do Parlamento afegão, onde testemunhou novamente a presença dos senhores da guerra corruptos, que são também senhores do ópio. Neste momento, o Afeganistão domina novamente o mercado de ópio mundial após três anos de crescimento meteórico, que evidentemente faz seus dirigentes ficar cada vez mais ricos. Desta vez, Joya manteria o silêncio? "Eu não poderia trair meu povo". Assim, no Parlamento ela começa a denunciar a presença e os atos deles.

Em maio de 2007, depois de ser constantemente ofendida e até mesmo agredida fisicamente em pleno Parlamento por colegas, ela é suspensa do ofício e outra terrível história começa a ser escrita.

Enquanto isso, o Afeganistão bate em 2007 seu próprio recorde histórico de produção de ópio: 8.200 toneladas (9). O Presidente Hamid Karzai é acusado de fazer parte disso. Neste ano também cresceu muito mais o confronto no país, particularmente ataques-suicidas como ocorrem no Iraque - anos antes incomuns no Afeganistão -, e as forças de ocupação dos EUA matam mais civis que nunca.

Joya hoje - "Troco diariamente de casa. Fui à minha cidade natal e uma ponte foi bombardeada ", disse. "Minha casa e o gabinete foram assaltados. A cada dia minha vida está em risco maior " (8). Joya tem sido ameaçada de espancamento, estupro e morte; invadiram seu micro-computador e homens devastaram seu gabinete. Por tudo isso, trafega com guardas armados escondida em uma burqa para não ser reconhecida, e nunca dorme duas noites na mesma casa.

"Eu Tenho um Sonho"

"Estou me preparando para regressar ao Parlamento, onde tenho legitimidade. Tenho um sonho. Até muitos. Sonho que as mulheres do Afeganistão ajam e mostrem que se for dada uma oportunidade, ela podem fazer um trabalho brilhante". (7)

No Afeganistão, 87% das mulheres sofrem violência doméstica; estupros são inúmeros e 80% dos casamentos são forçados, onde filhas servem como moeda de troca; suicídios são, muitas vezes, a única opção como fuga da miséria. "Se você soubesse o número de mulheres queimadas e deformados no hospital de Herat! Educação? Segundo a Oxfam, uma menina de cinco anos vai à escola primária, quando tem 20 à secundária! Não há nenhuma melhora nessa situação, e nas regiões dominadas pelos talibans muitas meninas são freqüentemente atacadas e estupradas a caminho de escola, e suas escolas são queimadas. Saúde? Não existe! A expectativa de vida da mulher no Afeganistão é de 44 anos, a cada 28 minutos uma mulher morre nos hospitais afegãos..." (Joya declarou ao Le Monde este ano).

Por Que Você Nunca Ouviu Falar em Joya?

- Porque os Estados Unidos permitem que tudo isso aconteça? (Agust Farooq Sulehria, Counterpunch Magazine, 18 de agosto de 2008)

Joya: "Os Estados Unidos querem que as coisas fiquem como estão. O status quo. Um Afeganistão sangrento, sofrido, é uma boa desculpa para prolongar a permanência deles. Agora, eles estão até abraçando o Taliban. Recentemente em Musa Qila, um comandante dos talibans, Salam de Mulla, foi nomeado governador por Karzai. Os Estados Unidos não têm nenhum problema com o Taliban, contanto que 'seja o nosso Taliban'.

"Não apenas Karzai, mas também todos esses senhores da guerra têm sido sustentados no poder pelos EUA. Por isso, quando há manifestações contra os senhores da guerra há também manifestações contra tropas estrangeiras. Aqui, se pensa que os senhores da guerra são protegidos pelas tropas dos EUA. Se os EUA saírem do país, os senhores da guerra perderão o poder porque não têm nenhum apoio da nossa população. O povo do Afeganistão lidará com esses senhores da guerra quando as tropas dos EUA deixarem o Afeganistão.

Em entrevista a Elsa Rassbach (2), Joya referiu-se às tropas aliadas desta mameira: (...) "Ao contrário do governo dos Estados Unidos, [as tropas aliadas] contarão com o povo afegão, individualmente e através de grupos amantes da liberdade, que são a alternativa real para os fundamentalistas.

"Hoje, precisamos de segurança e de liberdade, mas em nome da segurança as tropas estrangeiras privam-nos de nossa liberdade. Precisamos de apoio internacional mas não queremos ocupação. Infelizmente, hoje o Afeganistão tornou-se um país ocupado, e o governo dos Estados Unidos prosseguem com seus interesses regionais e econômicos, enquanto o bem-estar do povo afegão parece ser algo totalmente sem valor. Os Estados Unidos alimentaram e deram poder à Aliança do Norte, que é mais perigosa que o Taliban, como o próprio presidente Karzai confessou. E o Taliban está ficando mais forte, simplesmente porque a maioria do povo não suporta o atual governo.

"Devemos recordar que foram os Estados Unidos quem originalmente apoiaram o Taliban e o formaram, e os Estados Unidos também apóiam a Aliança do Norte. Os Estados Unidos poderiam facilmente livrar-se de um bando de pessoas com visão medieval, analfabetas e ignorantes como é o caso do Taliban. Na realidade, os Estados Unidos não são sérios em sua luta contra o Taliban, e precisam de apenas um pretexto para prolongar a sua presença no Afeganistão, e ameaçar o Irã, a China, os países da Ásia Central e outras potências asiáticas."

Sonali Kolhatkar disse: "Mulher como Malalaï Joya é 'inconveniente' para a administração Bush. Isso acontece porque Joya reflete a vontade do seu povo no apelo para acabar com os senhores da guerra e pôr fim à ocupação dos EUA. Bush e seus comparsas gostam de promover mulheres que passivamente aceitam o discurso dos EUA. e demonstram gratidão por ser 'salvas' pelos norte-americanos". (2)

Por isso você nunca ouviu falar em Malalaï Joya.

Prêmio Anna Politkovskaya' 2008

Anna Politkovskaya foi uma jornalista russa franca e ativista, que criticou duramente a guerra do Kremlin contra os rebeldes da Chechênia. Ela foi morta em 7 de Outubro de 2006, em seu apartamento em Moscou, por expor corajosamente violações russas aos direitos humanos no país vizinho, através de horríveis atrocidades contra civis.

Desde então, a organização Alcance Todas as Mulheres em Guerra (RAW na guerra, na sigla em inglês), em sua memória, premia anualmente uma mulher que, como Malalaï Joya, defende os direitos da mulher em uma zona de guerra e de conflitos, mantendo vivo o espírito de Politkovskaya.

Malalaï Joya visitou Londres para receber, em 6 de Outubro de 2008, o Prêmio Anna Politkovskaya porque, "Apesar das ameaças à sua própria vida, ela continua em seu trabalho para fazer do nosso mundo compartilhado um lugar melhor e mais seguro. Ela é modelo de ação a todos nós, e excelente exemplo de uma mulher muçulmana que está tão compromissada com sua religião como está com seu país e com sua política", disse a Baronesa de Warsi. Esse é um dos vários prêmios e títulos nobres que Joya tem recebido em todas as partes do mundo.

Eu sou uma pessoa. Não sou melhor que meu povo. E a segurança do todas as pessoas no Afeganistão está em risco. Minha vida corre risco cada vez maior todos os dias, porque eu não me entrego e não vou parar de lutar enquanto houver sangue no meu corpo

Prosseguirei cada vez mais em meu combate, porque a maior parte do meu povo está comigo

Eles podem cortar uma flor, mas não podem deter a chegada da primavera; eles poderiam me matar, mas não podem calar minha voz porque será para sempre a voz de todas as mulheres do Afeganistão

Joya, nós democratas de todo o mundo amamos muito você

FONTES:

(1) Baronees Warsi Meets Malalai Joya, The Sikh Times, London. 15 de outubro de 2008;

(2) Citado por Jake, the Champion of the Constitution in A Salute to Malalai Joya, no Nolan Chart, retirado de PBS's NOW. 8 de agosto de 2008;

(3) Daily Mail, www.dailymail.com;

(4) Bearing Witness: The Afghan Tragedy, The Nation, 7 de outubro de 2008;

(5) A Salute to Malalai Joya, Jake the Champion of the Constitution. Nolan Chart. 8 de agosto de 2008 ;

(6) Elsa Rassbach Interviews Malalai Joya, www.afterdowningstreet.org, Alemanha. 18 - 22 de setembro de 2007;

(7) "I have a dream" - Malalaï Joya : "Je rêve qu'une femme prenne un jour les rênes de l'Afghanistan". Le Monde, Paris. 24 de julho de 2008;

(8) Afghan Woman Rights Campaigner Wins Courage Award. Reuters, London. 7 de outubro de 2008;

(9) Almanaque Abril - 2008 (Brasil)