Esta é a versão na íntegra de artigo de Malalaï Joya, publicado em The Guardian ontem

Malalaï Joya, Z Magazine, 31.3.2011
tradução de Edu Montesanti

An Afghan civilian killed by US soldiers
As repugnantes e dolorosas fotos publicadas na semana passada pelos meios de comunicação estão

As repugnantes e dolorosas fotos publicadas na semana passada pelos meios de comunicação estão, finalmente, trazendo a verdade terrível sobre a guerra no Afeganistão, para um público mais amplo. Todo o argumento das relações públicas desta guerra que giram em torno da democracia e dos direitos humanos, evaporam-se no ar com estas fotos de soldados dos EUA posando com os corpos mortos e mutilados de inocentes civis afegãos.

Devo informar que os afegãos não acreditam que essa seja a história de uns poucos soldados maus. Acreditamos que as ações brutais desses "esquadrões da morte" revelam a agressão e o racismo como parte de toda a ocupação militar. Embora essas fotos sejam novas, o assassinato de inocentes não é. Tais crimes contra civis já provocaram muitos protestos no Afeganistão e têm elevado acentuadamente o sentimento anti-EUA entre o povo afegãos.

Não me surpreende que a mídia dos Estados Unidos relute para publicar estas imagens dos "esquadrões da morte" dos EUA, que assassinou afegãos por esporte. Existe, afinal, um esforço concentrado para manter a realidade do Afeganistão fora da vista dos EUA Afinal, General Petraeus, agora no comando da ocupação liderada pelos EUA, tem dado grande importância à "guerra da informação" para a opinião pública, e com base nessa estratégia o Pentágono se esforça para encobrir esses crimes.

Apesar de que os poucos soldados vistos nestas fotos estejam sendo processado, acredito que isso é mais um esforço para esconder as maiores violações dos direitos humanos levadas à cabo pelos EUA no Afeganistão. Eles devem, primeiro, julgar os responsáveis ​​pela morte de 65 mulheres e crianças em Agra de Kunar, em meados de fevereiro, por ter matado 150 civis na província de Kundz em outubro de 2009, por ter matado mais de 140 civis na província de Farah Balabluk de maio 2009, pelo assassinato de 100 crianças e mulheres em Azizabad de Herat em setembro de 2008, e muitos outros crimes desumanos para os quais o Pentágono disse apenas um "desculpem", e se esqueceu disso. Acredito que, se os EUA realmente são honestos, todos os funcionários da cúpula dos EUA, desde Roberts Gates até o general David Petraeus, sob cujo comando todos esses crimes de guerra foram perpretados, devem ser levados a julgamento.

No entanto, enquanto os EUA e a OTAN estão ocupados em crimes de guerra no Afeganistão, eles atacam a Líbia para punir Kadafi por violações dos direitos humanos! Para nós, é como se fosse uma verdadeira piada enquanto vemos o governo dos EUA apoiando alguém mais sujo que Kadafi em meu país.

Na semana passada, meu primeiro pedido de visto de entrada nos EUA foi recusado, e por isso o atual giro do meu livro nos Estados Unidos foi adiado, enquanto apoiantes exigiram o meu direito de entrar no país. O governo dos EUA, no entanto, foi pressionado a ceder e permitir que minha visita fosse autorizada. No final, eles também serão incapazes de bloquear a verdade sobre a guerra no Afeganistão.

As imagens dos"esquadrão da morte" causarão choque em muitos na Europa e na América do Norte, mas para os afegão, na verdade, não é nada de novo. Na última década, temos visto inúmeros incidentes dos EUA e das forças da OTAN matando pessoas inocentes como se foseem pássaros.

Por exemplo, recentemente, mataram nove crianças na província de Kunar que recolhiam lenha nas montanhas. Um dos inúmeros massacres de civis inocentes aconteceu em meados de fevereiro deste ano, quando as forças lideradas pelos EUA mataram 65 moradores inocentes, a maioria deles mulheres e crianças. Neste caso, como em muitos outros, a OTAN afirmou que eles tinham matado apenas rebeldes, apesar de autoridades locais terem reconhecido que as vítimas eram civis. Para manter os fatos obscuros, eles ainda prenderam dois jornalistas da Al-Jazeera que tentaram visitar e fazer reportagem do local do massacre.

An Afghan civilian killed by US soldiers

Os EUA e a OTAN têm tentado de tudo para esconder as mortes de civis, chamando a todos os mortos de terroristas ou insurgentes. Os afegãos consideram tais mentiras mais um tapa no outro lado da face, e um insulto em relação aos seus entes queridos que foram brutalmente mortos por eles.

Sucessivos funcionários do governo dos EUA disseram que vão proteger civis e que terão mais cuidado, mas na verdade eles são apenas mais cuidadosos em seus esforços para encobrir seus crimes e impedir a publicação deles nos meios de comunicação, pois muitos assassinatos horroríveis nunca são divulgados. Os EUA e a OTAN, juntamente com o escritório da Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão, costumam apresentar estatísticas de mortes de civis que subestimam o real número de mortos pelas forças de ocupação. A realidade, porém, é que as mortes de civis cresceram desde que Obama aumentou o número de tropas dos EUA no Afeganistão. A tão chamada "missão" do presidente só levou à incitação de violência de todos os lados.

Acredite ou não, os exércitos de ocupação até tentaram subornar as famílias de suas vítimas, oferecendo 2 mil dólares para cada membro da família dos que morreram. A vida dos afegãos é baratas para os EUA e para a OTAN, mas não importa o quanto eles estavam oferecendo, não queremos seu dinheiro manchado de sangue.

Quando você fica sabendo de tudo isso, e depois de ver as fotos horríveis do "esquadrão da morte", entende mais claramente porque os afegãos se colocaram contra essa ocupação. O regime de Karzai, que está repleto dos mais infames brutais senhores da guerra, da Aliança do Norte, é mais odiado do que nunca porque só governa por meio da intimidação, da corrupção e com ajuda dos exércitos de ocupação, e os afegãos merecem muito mais que isso.

No entanto, tudo isso não significa que mais afegãos estão apoiando a chamada resistência dos talibãs reacionários, que também continuam matando inocentes afegãos através de ataques suicidas. Estamos vendo o crescimento, sob condições muito difíceis, de outros à resistência, liderada por estudantes, mulheres e pessoas comuns, os pobres do Afeganistão. Eles estão tomando as ruas para protestar contra o massacre de civis e para exigir um fim à guerra. Manifestações como essa aconteceram recentemente em Cabul, Marzar-e-Sharif, Jalalabad, Kunar, Herat e em outras partes do país.

Esta resistência é inspirada nos movimentos de outros países, como Egito e Tunísia - queremos ver o "poder popular" no Afeganistão também. E, claro, precisamos de apoio e solidariedade das pessoas amantes da paz nos países da OTAN. Muitas vozes novas estão se levantando contra essa guerra cara e hipócrita no Afeganistão. Isso inclui alguns soldados dos exércitos da OTAN.

Na última vez que visitei o Reino Unido, tive a honra de conhecer Joe Glenton, um opositor que passou meses na prisão por sua resistência à guerra no Afeganistão. Do seu tempo na prisão, Glenton disse: "No clima atual, considero um prêmio de honradez ter servido a uma pena na prisão".

Assim, enquanto o mundo observa horrorizado as fotos do "esquadrão da morte", a coragem e o humanitarismo de Joe é um lembrete importante de que a guerra no Afeganistão não precisa durar para sempre.